Uma campanha de phishing ativa desde meados de agosto de 2026 vem usando convites do Google Calendar para sequestrar sessões autenticadas de contas corporativas do Google Workspace, mesmo quando a vítima tem autenticação multifator (MFA) ativada. A operação foi documentada pela equipe de pesquisa de ameaças da Material Security, que lançou uma ofensiva de derrubada de infraestrutura batizada de Operation CloudFire e já tirou do ar 897 domínios ligados ao esquema.

O caso importa porque não depende de nenhuma vulnerabilidade no Google. O golpe explora a confiança que filtros de e-mail, ferramentas de reputação e os próprios usuários depositam na infraestrutura legítima do Google, e mostra na prática por que códigos por SMS, aplicativos autenticadores e confirmações por toque não bastam contra ataques do tipo adversary-in-the-middle (AiTM).

Como o ataque chega à vítima

A isca é um convite de calendário, às vezes enviado em cópia oculta (BCC) e, com frequência, a partir de uma organização com quem o destinatário já trocou mensagens. Segundo a Material, os remetentes são contas comprometidas anteriormente, o que permite à campanha se propagar pelos contatos de vítimas anteriores. Os temas são propositalmente banais: aviso de correio de voz, pedidos de cotação (RFP/RFI), intimações judiciais e cobranças em atraso.

Os links do convite apontam quase sempre para o próprio Google, normalmente o redirecionador /url, com o destino real escondido em um parâmetro. Outras ondas usaram links share.google e arquivos do Drive, e uma variante usou notificações de transação da Intuit.

Por que os controles tradicionais não detectam

A cadeia foi montada em camadas para que cada verificação de reputação retornasse um resultado limpo:

  • Primeira camada: o domínio inicial é do Google, com certificado e reputação legítimos.
  • Segunda camada: um desafio Cloudflare Turnstile, em algumas versões o widget genuíno servido pela própria Cloudflare, que filtra rastreadores automáticos.
  • Terceira camada: a página que captura a senha não tem um endereço para ser analisado. Ela é montada em memória por JavaScript depois que o visitante passa pelo desafio, sem deixar rastro em logs de proxy.
Fluxograma em três camadas da campanha: links de isca no redirecionador do Google, no Drive e no encurtador share.google levam a um domínio do atacante com token; sem token, a vítima vai para um site de fachada; com token, passa por um desafio Cloudflare Turnstile ou por uma caixa de verificação falsa; por fim, um documento blob montado em tempo de execução carrega kits que capturam e exfiltram credenciais via WebSocket.
Sem o token da isca, o visitante cai num site de fachada; com ele, passa pelo desafio e recebe a página de captura montada no próprio navegador.

A infraestrutura é descartável. A Material relata domínios registrados poucos dias antes do uso, em vários registradores, e até um certificado curinga emitido 46 minutos antes do registro do domínio que ele cobria. Segundo os pesquisadores, até meados de setembro os domínios de isca apareciam limpos em todos os feeds comerciais de reputação consultados.

Gráfico de bolhas da idade ponderada dos domínios maliciosos no momento da detecção, de 27 de setembro a 23 de outubro de 2026: começa entre cerca de 100 e 300 dias e cai para menos de 30 dias no fim de outubro, com bolhas cada vez menores.
Ao longo de outubro, os domínios usados ficaram mais novos e menos numerosos, sinal de infraestrutura comprada para ser descartada.

O proxy reverso que neutraliza o MFA

O componente central é um proxy reverso posicionado entre o navegador da vítima e a página real de login do Google. A vítima digita a senha, recebe um desafio verdadeiro e o aprova, enquanto o operador acompanha a sessão em tempo real. Códigos por SMS, códigos de aplicativos autenticadores, a correspondência de números do recurso “Tap Yes” e a recuperação de conta por telefone são repassados ao Google conforme chegam. Ao final, o atacante fica com os cookies de uma sessão já autorizada.

De acordo com a Material, o framework por trás da campanha é documentado publicamente desde fevereiro sob o nome Nyasher, referência a uma chave deixada fixa no código JavaScript. Os pesquisadores também encontraram um ramo inacabado voltado ao Microsoft 365, o que indica que o mesmo kit pode ser adaptado para mirar contas da Microsoft.

Diagrama do fluxo do ataque: convite do Google Calendar enviado de conta comprometida, redirecionador legítimo do Google, domínio do atacante com token, desafio Cloudflare Turnstile, página de login falsa montada em memória, proxy reverso AiTM que repassa senha e MFA, roubo do cookie de sessão e acesso ao Workspace.
Só quem chega com o token válido vê a página falsa; o proxy repassa as credenciais e o MFA ao Google e fica com o cookie da sessão.

Escala observada

Em um mês de Operation CloudFire, a Material afirma ter registrado 68.676 mensagens bloqueadas, 2.112 URLs maliciosas únicas, 897 domínios derrubados e 8.570 endereços remetentes comprometidos, distribuídos em 6.354 domínios raiz. Os números vêm apenas de clientes que aceitaram compartilhar dados, portanto o volume real tende a ser maior. A empresa disponibilizou uma planilha pública com os domínios identificados para que equipes possam procurá-los em seus ambientes.

Gráfico de barras com a contagem semanal de mensagens maliciosas detectadas de 10 de agosto a 1º de novembro de 2026: pico de cerca de 13 mil por semana no fim de setembro, queda brusca a partir de meados de outubro e curva acumulada estabilizada perto de 68 mil.
O volume disparou na segunda quinzena de setembro e despencou a partir de meados de outubro, quando a derrubada de domínios ganhou ritmo.

Os envios seguiam o horário comercial dos Estados Unidos, o que ajuda a campanha a se misturar ao tráfego legítimo de convites corporativos.

Mapa de calor das detecções por dia da semana e hora, no horário do Pacífico: 97,7% caíram de segunda a sexta, 47,9% entre 8h e meio-dia, e o horário de maior volume foi terça às 10h, com 3,22%.
Quase todas as detecções caíram em dias úteis, concentradas entre 8h e meio-dia no horário do Pacífico.

Impacto para empresas

Uma sessão Google sequestrada dá acesso a e-mail, Drive e à possibilidade de conceder acesso OAuth a aplicativos em nome da vítima. Isso amplia o alcance do incidente muito além da caixa de entrada: permite exfiltração de documentos, criação de regras de encaminhamento e uso da conta para novos convites maliciosos. No Brasil, onde o Google Workspace é amplamente adotado por empresas, escolas e órgãos públicos, o modelo merece atenção das equipes de segurança.

Como se proteger

Autenticação resistente a phishing

  • Adote passkeys ou chaves de segurança FIDO2/WebAuthn. Como a credencial é vinculada criptograficamente ao domínio legítimo, o proxy não consegue reaproveitar a resposta em outra origem.
  • Priorize contas administrativas, financeiras e jurídicas, que são alvos naturais dos temas usados nas iscas.

Detecção e resposta no Workspace

  • Monitore os logs de auditoria do Google Workspace em busca de logins de IPs ou dispositivos incomuns e de novas concessões OAuth — o tutorial da NULL TRACE sobre caça a sessões sequestradas com a Reports API mostra como automatizar essa checagem.
  • Em caso de suspeita, não se limite a trocar a senha: encerre todas as sessões ativas, revogue tokens OAuth e remova regras de encaminhamento e delegações criadas.
  • Consulte a lista de domínios publicada pela Material nos logs de DNS, proxy e e-mail.

Configuração e conscientização

  • Avalie restringir o recebimento automático de convites de remetentes externos no Google Calendar.
  • Oriente os usuários a desconfiar de convites inesperados com links para “ouvir correio de voz” ou “ver documento”, mesmo vindos de parceiros conhecidos.

Conclusão

A campanha não explora falha técnica do Google: ela combina contas comprometidas, infraestrutura legítima e um proxy em tempo real para contornar as formas mais comuns de MFA. A principal lição é que MFA baseado em códigos ou aprovações protege o login, mas não a sessão gerada depois dele. Migrar para passkeys ou chaves de segurança, vigiar os logs do Workspace (veja o tutorial de caça a sessões sequestradas) e ter um processo rápido para revogar sessões são as medidas que fazem diferença. Para outros casos recentes de ameaças a plataformas web, acompanhe a categoria Threat Intelligence do NULL TRACE.